Zamprex!

Artigos de um programador workaholic quase-ex-comunista sobrevivendo num mundo capitalista fedorento (o mundo), sem acreditar em Deus ou qualquer coisa esquisita.

24.5.04

Texto publicado no Melodrama nº 2, de maio de 2004.

Grita!

Esperneia, remexe, revira, olha bem o caminho e corre! Faça, aconteça, porque o povo está esperando e, afinal de contas, não estamos aqui à toa.

Levanta, camarada! E faz da tua existência necessária e valorosa! Xinga e bate, só por bater, mas faz! Simplesmente faz.

Desde nossa concepção, somos energia - e da melhor qualidade. Somos pés para chegar e mãos para tocar, unha para machucar e olhos para admirar, aproveitar. Nós somos homens e fortes desde o começo, ao mesmo tempo em que, a partir do primeiro dia, somos decadentes e enfraquecemos (mas só se formos "normais"). O processo da vida se resume em vitória ou fracasso - nada além e simples assim.

Então grita e solta o verbo, sim! Chora e sente o que há para ser sentido, mas com convicção e dedicação! Participa, dá opinião e faz diferença, porque é disso que são feitas nossas vidas e é disso que vamos lembrar amanhã. O fracasso e a mesmice são o caminho mais fácil e por isso mesmo o mais covarde e ridículo.

Não mata, desmoraliza! Não peca, ilude! Não vive de qualquer maneira, mas da melhor maneira. Aceita a metamorfose natural que te acomete e tira proveito; aprendizado aproveitado e esperto, um sarro bem tirado com o que mais nos preocupa e tira o sono. Brinca e vive, porque todo o resto é bobagem.

E não diga que eu não avisei...

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17.5.04

E mais um domingo passou.

Os domingos são dias interessantes. Intensos, cheios de significado e reflexão, cheios de uma energia incrível, que para alguns é ótima, mas a outros doída.

Uma vez por semana, temos um dia que poderia ser como todos os outros, mas não o é porque em geral não precisamos trabalhar, somos chamados ao recolhimento e podemos experimentar um pouco de liberdade - ou sofrimento, conforme as circunstâncias e as neuras de cada um.

Este dia, domingo... criado em folga como referência ao sétimo dia da criação, onde até o Grande Arquiteto descansou, faz-me pensar. Até demais... não por ser o domingo folgado e nem porque eu não tenha outra coisa a fazer senão me afundar em raciocínios e loucuras preguiçosas, mas principalmente por uma sensação de impotência, de ausência de forças e uma incontrolável vontade de não fazer nada.

Aos domingos, sinto-me solitário em minha existência (e, ao que me lembro, sempre foi assim). Aos domingos, torno-me vítima das circunstâncias e, completamente oprimido por todo um universo de inércia, reluto em sair da cama, teimo em não me mover rápido demais, anseio por calma e quietude, até ficar mesmo quase sem respirar. Queria aproveitar o sol deste tal de domingo - quando ele vem - e correr por aí; queria me sentir livre a ponto de gritar e cantar e sorrir por estar comemorando o milagre da vida; aproveitar a folga semanal e ler, conversar e fazer todas as coisas por fazer, prazer! Mas levanto-me não antes do meio-dia e não ouso sair de casa, assaltado por uma tristeza e um peso inexplicáveis e de implacável poder sobre mim, que me tornam um ser inútil e lerdo!

Desde sempre foi assim e não creio que um dia terei forças para derrotar esta lei mística e eterna da vida. "E no sétimo dia Ele descansou" e eu fiquei triste e cansado, muito cansado da vida... e nem ao mesmo ousei chorar, ou sorrir ou viver de qualquer outra forma, senão a louca forma cretina a que me acostumei, aos domingos. Só aos domingos...


PS: Não ouçam "The Best Things", by Steve Khun, aos domingos. Pode ser fatal (ou perfeito).

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Texto publicado no Melodrama de maio/2004.

Seu lar é uma fonte de felicidade

A frase, mecânica e tipograficamente impressa num pequeno pedaço de papel enrolado, antes encerrado num biscoito da sorte, ao ser libertada consegue a máxima de uma gargalhada. Perfeita sensação, não fosse seu complemento um turbilhão de pensamentos adversos de dúvida, dor e ódio.

Porque o mundo e a nossa existência seriam perfeitos; o universo conspiraria a nosso favor e nossos lares verdadeiras 'fontes de felicidade'; seríamos todos seres do bem e a dúvida não nos acompanharia, se estivéssemos preparados para enfrentar o lunatismo de uma vida 'normal', fazendo, em primeiro lugar, dos nossos lares nascentes de energia positiva.

É fato que em geral nossas dúvidas (as que causam as dores) nos consomem a partir da total falta de preparo em que somos jogados, ao iniciar nossa jornada neste planetóide, mundo que se apresenta a cada dia como um lugar mais assombroso e inseguro.

Somos filhos da dúvida. Crescemos e desenvolvemos um ambiente de questionamentos ao nosso redor, colocando-nos de forma animalesca numa defensiva eterna. Freud explica, mas não resolve, a culpa que joga a sociedade apocalipticamente moderna a guerras estúpidas, corriqueiras. O falocentrismo mundializado rompe fronteiras, derruba presidentes e nos traz de volta, numa mistura escabrosa com o materialismo exacerbado, o perigo iminente, o medo, o apocalipse. Tomamos como normais as divisões vergonhosas de recursos e a exploração do indivíduo, por toda parte. Toneladas de lixo publicitário invadem nossas vidas e nos tornam cada vez menos dotados de livre arbítrio, enquanto relaxamos.

E ninguém nos preparou para isso. E então nos embriagamos de academicismos inúteis e deixamos de lado a discussão verdadeira, nosso presente, passado e futuro, como detentores do poder supremo da manipulação de todas as coisas. Ética e religião são necessários, mas de que forma e até que ponto e para quem?

Mais simples seria, de começo, fazermos de nossos lares "fontes de felicidade". O preparo para a mudança passa necessariamente por reflexão e interior e conhecimento de si. O primeiro passo, meus amigos, tem que ser dado por nós mesmos, porque a loucura coletiva é muito louca...


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